Sobre comunicação
Dizer coisas é bom, ventilar é magnífico mas, a maioria das pessoas apenas profere palavras que não querem dizer coisa alguma. É por isto que surgem os conflitos: falta de comunicação.
Sim, as palavras lá terão o seu sentido …. para quem as diz, mas de que adianta fazê-lo quando quem as ouve não entende?
Será o interlocutor surdo e tolo? Ou será que o ser falante se limita a balbuciar a confusão que lhe vai na cabeça?
O que é comunicação?

Comunicação em terapia
É incorrecto dizer-se “para quê pagar a um psicólogo quando falar com um amigo é mais fácil e barato'”.
Primeiro: o profissional tem capacidade de ouvir e analisar, ajudando o cliente a interpretar as situações de vida de uma forma que uma pessoa conhecida, seja amigo ou familiar, não tem;
Segundo: a malta tem a mania que terapia é só falar e falar, enfim “dizer coisas”.
Sim, nós psicoterapeutas devemos deixar as pessoas falar mais do que as ouvimos. Afinal de contas, a Psicologia tem a sua tradição na “talking cure“. No entanto, as nossas intervenções, quando acontecem, servem um propósito.
Além disso, a terapia implica também trabalho da parte do cliente. É essencial que o cliente saiba ouvir quando é preciso e nem todos o conseguem fazer e é por isso (também) que a terapia não é para toda a gente (embora fizesse bem a muita gente).
Tem de haver sentido de autocrítica, humildade e capacidade analítica.
… queres saber o que me “inspirou” a escrever isto? Uma reunião de condomínio.
O maravilhoso mundo das assembleias de condóminos
….onde a comunicação é a cena mais esquizotípica que existe!
Faltas de literacia financeira, etiqueta social, respeito e real interesse pelos assuntos comunitários, são elementos essenciais para que uma Assembléia de Condomínio corra MAL. Por essa razão ficamos todos excitados (só que não) quando temos de assistir a uma.
É normal as pessoas destilarem raiva e acusações para sentirem que estão a fazer alguma coisa quando na realidade é uma expressão do vazio que tem dentro de si, seja qual for a razão. Elas precisam ouvir a própria voz.
Isto é o que eu chamo de “dizer coisas”.
O problema é que para as pessoas se entenderem e resolverem conflitos e outras situações para o bem estar de todos, como era suposto num condomínio, também é preciso conhecer o problema.
Além disso, é preciso saber o que se quer comunicar, onde se quer chegar com o que se quer dizer, respeitar a outra pessoa e saber ouvi-la para chegar a uma conclusão satisfatória para todas as partes.
“Dizer coisas” não chega.
A dinâmica da comunicação

Vivemos sempre muito à pressa, não “perdemos” tempo a pensar.
Sentimos necessidade de ser ouvidos e de ser vistos. Na verdade, não investimos tempo na relação com o outro porque estamos demasiado focados em nós mesmos.
Mas era bom que isso mudasse.
Não podemos usar as pessoas como saco do lixo, despejando as nossas frustrações – seja em que situação for.
Do outro lado nunca se sabe o que está a acontecer e arriscamos a dizer uma má palavra num momento em que ela pode cair em saco roto mas também pode ter um peso enorme e arruinar uma relação.
Também há que saber ouvir
Em suma, seja em relações pessoais ou profissionais, ou até numa psicoterapia, é fundamental falar e fazermo-nos ouvir mas também é essencial saber ouvir.
Essa será, na minha opinião, a essência da comunicação: a interacção com o mundo.
O que só se ouve a si mesmo, o que só aprecia as suas próprias ideias, o que se sente atraído pelo som da sua própria voz, o que não concede importância à existência de outras pessoas e usa-as apenas como ecrã para reflectir as suas palavras, nunca poderá conversar, nunca poderá estabelecer uma salutar relação humana.
Há que saber ouvir. Não é preciso ser-se mudo ou retraído, mas antes usar essa faculdade excelente que nos faz tomar em consideração quem temos pela frente, a quem procura uma relação tanto como nós a procuramos. Ouvir é uma arte: requer prestar atenção, valorizar o que os outros dizem, entender por que é que dizem as coisas que nos dizem, ler nos olhos do que fala tanto como se ouvem as suas palavras, colaborar em silêncio com gestos que indiquem a nossa activa participação no diálogo.

Vivo para escrever. Adoro puzzles e mistérios. Não passo sem um cafézinho, música e uma boa dose de ironia. Silêncios são necessários e prazerosos, assim como os livros. * Sou Mestre em Psicologia Clínica e trabalho como Terapeuta de Shadow Work e Desenvolvimento Pessoal. * As minhas áreas de interesse preferidas são Psicologia Analítica, Mitologia, Filosofia, Psicologia da Religião e Parapsicologia.