Espiritualidade nas redes sociais
Falar de espiritualidade nas redes sociais é positivo até ao momento em que te tentam vender a fantasia de uma vida interior glamorosa e pacifica.

“Estar no palco é um mundo de fantasia. Todo o mundo lá fora enche-te com uns pozinhos dourados maravilhosos e tu começas a acreditar naquilo. Mas depois chegas a casa e pensas: ‘Onde estão os meus pozinhos dourados agora?’ Já não é tão maravilhoso assim, estar aqui sozinho sentado com dois gatos, a ir à rua deitar fora o lixo.”
James Hetfield (Metallica)

A espiritualidade nas redes sociais
Agora, pensemos na nossa vida, que não é nos palcos debaixo da luz dos holofotes mas num meio onde somos também brindados com purpurinas e pozinhos mágicos: o fabulástico mundo da espiritualidade nas redes sociais.
Começas por ouvir as palavras doces daqueles que asseguram que, porque eles mudaram, tu também vais mudar. Vais ser convencido a comprar um curso (geralmente caríssimo!) depois de uma masterclass gratuita (olha o isco!) no qual te ensinam todos estes truques para enriquecer, ser feliz, manifestar um grande amor e ter um cabelo fantástico!
Porque somos verdinhos e temos sede de beber algo que nos preencha, achamos que a espiritualidade ou o autoconhecimento através destes mestres internáuticos, de aspecto glorioso e confiante, vai guiar-nos no caminho da iluminação até encontrarmos o nosso propósito.
Só que depois chegamos a casa, como o James, e tudo o que temos é a solidão e a realidade da vida mundana que nos deixa frustrados.

O caminho da espiritualidade é individual
Há que cair na real, mesmo que doa.
A espiritualidade é um caminho bonito de desbravar. Muitas vezes é solitário e sombrio; outras é gregário e solarengo mas é, sobretudo, algo que é só teu.
Seja dentro de uma religião tradicional ou num movimento não dogmático, todas as experiências que vives são sentidas e interpretadas pela tua própria sensibilidade.
Ser e viver a espiritualidade não é coisa que venha em pacotes, pronta a consumir.
É algo profundo, que brota da da tua alma, que se desenvolve ao longo do tempo e conforme as tuas condições pessoais, sejam físicas ou emocionais.
Por isso mesmo, é importante fazeres um processo de autoconhecimento, para te ajudar a distinguir o que é teu e o que é dos outros.
Se te conheceres bem o suficiente, irás também saber reconhecer os falsos mestres nas redes sociais que querem vender-te espiritualidade a metro.
Uma orientação é preciosa e sabe bem.
Uma boa palavra tem o seu valor no momento certo.
Um guia ou mentor poderá inspirar-te, mas o caminho é individual.
Enquanto ser pensante que é, capaz de compreender-se a si próprio, fruto de existir nele uma dualidade, que o distingue dos outros animais e da natureza em geral, o ser humano, está em permanente deslocação em relação a si próprio, sendo nessa deslocação de si, que, logo cedo, descobriu a espiritualidade como algo que lhe é próprio e que o identifica.
Catré, M., Ferreira, J., Pessoa, T., Catré, A., Catré, M. (2016) Análise Psicológica, 1 (XXXIV): 31-46

Vivo para escrever. Adoro puzzles e mistérios. Não passo sem um cafézinho, música e uma boa dose de ironia. Silêncios são necessários e prazerosos, assim como os livros. * Sou Mestre em Psicologia Clínica e trabalho como Terapeuta de Shadow Work e Desenvolvimento Pessoal. * As minhas áreas de interesse preferidas são Psicologia Analítica, Mitologia, Filosofia, Psicologia da Religião e Parapsicologia.