Terapia: um espaço para ser e existir inteiro
I’m listening
Enquanto ia escrevendo e a pensar no que queria dizer, veio-me à ideia a famosa frase do Dr. Frasier Crane, na série Frasier:

É muito isto que um terapeuta faz: ouvir.
Mas, para isso, é preciso que exista alguém que fale.
Durante muitos anos houve a ideia de que quem ia à terapia tinha problemas graves, crises urgentes, fragilidades incapacitantes, ou então não estava “bom da cabeça”.
É claro que essas crises também acontecem. E ainda bem que as pessoas procuram apoio, porque há momentos em que há dores que precisam mesmo de um lugar para se expressarem.
Um espaço de autoconhecimento, para SER
Hoje em dia, também muito pela especificidade do meu trabalho, encontro cada vez mais pessoas que chegam à terapia por razões menos óbvias. Menos diagnosticáveis ou fáceis de pôr numa caixinha com etiqueta.
Nem sempre vêm porque têm “um problema” concreto para resolver. Às vezes vêm porque precisam de ser vistas, não num sentido arrogante e egocêntrico, mas porque precisam sentir que não estão sós e que o que passaram na vida não é coisa pequena e merece atenção. Há pessoas que precisam contar uma história que nunca contaram a ninguém ou porque querem sentir-se acompanhadas numa tomada de decisão difícil.
Muitas vêm porque querem SER, querem conhecer-se melhor. E porque felizmente já estão conscientes de que o autoconhecimento é também uma porta para melhorarem as suas relacões pessoais e até profissionais.
E esta parte, do autoconhecimento, é uma das mais bonitas do meu trabalho enquanto Shadow Worker.
A vida não vem arrumada por capítulos
Há quem chegue a este espaço com um desconforto que não sabe identificar e sem saber exactamente por onde começar, porque a vida não vem arrumadinha, pronta a ser folheada por capítulos:
Capítulo Primeiro: Hoje vamos falar da infância.
Capítulo Segundo: Hoje tratamos da relação com a mãe.
Capítulo Terceiro: Hoje resolvemos a culpa, a vergonha e a dificuldade em dormir.
Capítulo Quarto: Está feito, obrigada e boa tarde.
Era bom, dava jeito. Mas não é assim que funciona.
A relação também faz parte do processo
Quando estagiei no Centro de Saúde, há cerca de 15 anos, percebi muito cedo os limites de um modelo onde há demasiada procura, pouco tempo e morosidade na contratação de profissionais. E, embora compreenda as circunstâncias, que não tem nada que ver com a competência dos profissionais de saúde, percebi que não era assim que eu queria trabalhar, a despachar pessoas, porque não há condições para mais.
Aqui transporto um pouco da minha parte pessoal para o trabalho: eu gosto da relação que é construída com o outro.
A ponte que nós, terapeutas, criamos com os nossos clientes, mesmo com os limites necessários e saudáveis, é essencial para o processo terapêutico, porque é preciso tempo e confiança para entrar no mundo da pessoa que vem até nós.
No Shadow Work, a sombra também tem lugar
No Shadow Work, isto torna-se ainda mais evidente.
Porque não estamos apenas a falar das partes bonitas, luminosas e socialmente aceitáveis. Estamos sobretudo a falar das partes negadas, feias, contraditórias, incómodas, que se escondem numa gavetinha muito bem trancada, dentro de um armário esquecido num sótão poeirento.

Um espaço para existir inteiro
A maior parte das pessoas não precisa apenas de conselhos ou que lhes digam o que fazer.
Muitas vezes já pensaram em tudo. Já analisaram tudo. Já fizeram várias terapias, mapas mentais, criaram teorias e fizeram filmes completos na cabeça com banda sonora e final alternativo.
O que precisam é de um espaço onde possam existir inteiras, com dúvidas, hesitações, contradições e vergonhas. Com dores que continuam lá, apesar de tudo o que já foi sentido, chorado e confessado à melhor amiga em áudios de 20 minutos no WhatsApp às 3 da manhã.
Tragam-me o Caos!
Ser testemunha de alguém neste ponto da vida é um privilégio.
Talvez por isso o meu lema seja:
I see beauty in darkness.
Não me tragam vidas arrumadinhas e pessoas cheias de certezas.
Tragam-me o caos! I can deal with it.
Há algo muito profundo em poder dizer a alguém:
“A tua história é real. Podes começar a ocupar o teu lugar no mundo sem precisar de pedir autorização. Estou aqui e estou a ouvir-te. ”

Vivo para escrever. Adoro puzzles e mistérios. Não passo sem um cafézinho, música e uma boa dose de ironia. Silêncios são necessários e prazerosos, assim como os livros. * Sou Mestre em Psicologia Clínica e trabalho como Terapeuta de Shadow Work e Desenvolvimento Pessoal. * As minhas áreas de interesse preferidas são Psicologia Analítica, Mitologia, Filosofia, Psicologia da Religião e Parapsicologia.