Individuação
O processo de individuação, como refere o terapeuta e professor Rafael Krueger, é sobre “sujar as mãos” e “pagar o preço” para nos tornarmos quem realmente somos.
The individuation process is about getting our hands dirty and paying the price to become who we truly are, it isn’t static and it doesn’t have a fixed and final goal, as individuation is an ongoing process and an ideal to be pursued.
Here, I believe it’s important to demystify the “myth of being cured” because many people sell this idea that we should be above any suffering and someone who overcame their traumas will live in “eternal bliss”.
Rafael Krueger

Individuação – Tornar-se quem se é
O nosso querido Jung não nos deu um prazo para alcançar tal objectivo. Deu a entender que talvez até nem consigamos chegar a esse estado de “sermos quem somos” na totalidade. Não porque não tenhamos capacidade, mas pela dimensão enorme de quem é o ser humano.
Mas tentamos. Maior parte das vezes sem darmos conta. Quem faz terapia tem um pouco essa noção. Mas mesmo esses, nos quais eu me incluo, não têm presente, em consciência, que o processo A + B ou a aprendizagem XYZ são parte desse processo de evolução pessoal.
Até porque esses pulos de crescimento geralmente não são bonitos, nem instagramáveis, nem tranquilos. Não temos essas epifanias quando estamos sentados no zafu, com chá de camomila e incenso de sândalo a aromatizar a sala.
O crescimento dá-se quando somos postos à prova, quando somos confrontados com situações conflituosas, com pessoas que nos provocam e desafiam, quando nos sentimos a maior das porcarias no meio do chiqueiro.
Consciência escolhida
E num destes dias, ao rever a Guerra dos Tronos, houve uma cena em que comentei sobre determinada personagem, que era ali naquele momento que ela perdia a inocência.
Acho que com a Individuação acontece o mesmo. Nós temos um monte de ideias românticas sobre o que é que ser adulto. Sobre o que é amar e ser amado. Ter uma carreira de sucesso. Como seriam as férias perfeitas. Como viver a espiritualidade.
E com o tempo, e os tabefes da vida, vamos perdendo essa idealização do que é ser um ser humano adulto funcional e socialmente encaixado.
Às vezes tornamo-nos mais duros, cínicos, mais reservados, mais cautelosos ou mais afoitos e desafiadores.
Perdemos a inocência. Mas ganhamos visão. A inocência inconsciente torna-se consciência escolhida.
Percebemos que, às tantas, o caminho passa por desafiar as normas, sustentar dilemas, reconhecer as partes que escondemos, deixar cair máscaras sociais e aceitar que certas escolhas terão um preço.
Individuar não é um caminho limpo e luminoso. Não é fazer o que nos dá prazer. Não é a versão bonita da Gata Borralheira que se transforma em Cinderella.
Individuar é aproximarmo-nos daquilo que nos torna inteiros, mesmo quando essa inteireza nos obriga a abandonar a pessoa que imaginávamos que devíamos ser.

Vivo para escrever. Adoro puzzles e mistérios. Não passo sem um cafézinho, música e uma boa dose de ironia. Silêncios são necessários e prazerosos, assim como os livros. * Tenho formação académica em Psicologia Clínica e trabalho como Terapeuta de Shadow Work e Desenvolvimento Pessoal. * As minhas áreas de interesse preferidas são Psicologia Analítica, Mitologia, Filosofia, Psicologia da Religião e Parapsicologia.