A tentação de salvar o outro
Quando vemos alguém de quem gostamos em sofrimento, a nossa tendência é, naturalmente, acudir e cuidar. Mas por vezes, em diferentes circunstâncias, pode surgir algo mais profundo:
A tentação de salvar o outro
Salvá-lo, por exemplo, de um estilo de vida que não é saudável, de um mau casamento, de más companhias, de ideias opostas às nossas, de más decisões, enfim… de tudo aquilo que nós achamos que lhe faz mal.
Automaticamente viramos os “messias” salvadores daquela pessoa.
Isto é particularmente complexo quando acontece no contexto de um relacionamento amoroso. Porque nos tornamos mães, pais, filhos, filhas, amigos, terapeutas, aqueles que magicamente mostram ao outro o seu verdadeiro potencial… tudo isso, menos companheiros ou amantes.
Quantas vezes queremos orientar alguém por um caminho que, na nossa perspectiva, é claro e óbvio, mas que essa pessoa não vê? E ficamos frustrados porque fizemos tudo ao nosso alcance a o outro não vê e não reconhece.
Tu podes ter toda a razão e todo amor do mundo que justifique a tua acção. Ao quereres trocar a agulha da via que a pessoa de quem gostas está a seguir, tu vês que aquilo vai dar a um buraco negro e tenta protegê-la.
Mas eu pergunto:
– Essa pessoa sequer sabe em que caminho está?
– Será que proteger é a melhor maneira de a ajudar?
– Estás realmente a pensar na pessoa ou estás a querer ter razão e provar algo?

Não fará parte do crescimento dela passar pelo que tem de passar para tomar consciência das suas escolhas e tomar a decisão que achar melhor para si?
Teremos sequer esse direito de procurar decidir a vida do outro só porque a nós faz sentido que seja assim e não assado?
Uma armadilha para o nosso ego
Este desejo de salvar o outro pode ser altruísta e maravilhoso, mas também pode ser uma armadilha para o nosso próprio ego, no sentido em que serve para nos apaziguar a nós próprios e fazer-nos sentir úteis.
Por muito que nos custe ver alguém sofrer, talvez seja preciso deixar que essa pessoa tome consciência da sua própria ferida.
Talvez seja importante, e até justo, permitir que a pessoa cresça ao seu próprio ritmo e se cure com as suas próprias ferramentas.

Vivo para escrever. Adoro puzzles e mistérios. Não passo sem um cafézinho, música e uma boa dose de ironia. Silêncios são necessários e prazerosos, assim como os livros. * Sou Mestre em Psicologia Clínica e trabalho como Terapeuta de Shadow Work e Desenvolvimento Pessoal. * As minhas áreas de interesse preferidas são Psicologia Analítica, Mitologia, Filosofia, Psicologia da Religião e Parapsicologia.