Nem Sempre Zen®

Shadow Work | Desenvolvimento Pessoal | Espiritualidade

Empoderamento feminino?

Empoderamento feminino?

O que é isto, afinal?

 

“é mais fácil, vendável e aprazível promover retiros no Meco do que exigir políticas públicas que combatam e corrijam a assimetria histórica entre homens e mulheres.”

 

Em 2019 escrevi um artigo que falava sobre o “empoderamento no vazio“. De lá para cá, pouco vi mudar. Pelo contrário, aumentou o nível de alienação e conformismo mascarado de desenvolvimento espiritual.

Ao longo do ano passado, fui escrevendo pequenas notas sobre a forma como o empoderamento das mulheres é publicitado, mas acabei por não publicar.

É, porém, tema recorrente de conversa entre mim e a Joana Silva do site www.terapiasdalma.com : eu enquanto observadora crítica e a Joana enquanto estudiosa e pesquisadora do feminino, do sagrado e do profano.

 

Hoje li uma crónica no jornal Público, escrito pela Maria João Faustino, investigadora em Psicologia, e  que expressa muito bem a minha “indignação” com este tema – sim, eu às vezes sou uma pessoa muito zangada, mas faz parte de mim, por favor não me anulem a voz mandando-me ser zen.

 

Distanciado do sentido original de empoderamento, inicialmente radicado num programa de desenvolvimento e mudança social efectiva, o conceito corrente de empoderamento é aparentemente despolitizado. É, contudo, profundamente político, enraizado num contexto neoliberal que estabelece a equivalência entre escolha individual, consumo e liberdade. A retórica do empoderamento é reflexo do individualismo que centra e aclama a autotransformação e relega a transformação social: afinal, é mais fácil, vendável e aprazível promover retiros no Meco do que exigir políticas públicas que combatam e corrijam a assimetria histórica entre homens e mulheres. 

 

https://www.publico.pt/2021/06/22/p3/cronica/favor-parem-empoderar-queremos-livres-1966871

 

A minha experiência pessoal

 

O empoderamento feminino, no meio do desenvolvimento pessoal e espiritual, faz-se muito no particular a nível individual, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, se apregoa a sororidade.

Na minha experiência pessoal, quando me lancei num potencial negócio e o anunciei ao mundo, as mulheres ao invés do apoio que eu esperava, ofereceram as costas. Por outro lado, vi formarem-se clubes da Luluzinha e grupos de mulheres nos quais os membros se incentivam e elogiam uns aos outros mas fecham-se às restantes mulheres que, como elas, se esforçam para ser independentes financeiramente.

Inveja? Ignorância? Desconhecimento? Desinteresse? Quem sabe?…

 

O mundo do feminino no seio da espiritualidade tornou-se um mercado, cheio de ideologias que ignoram todo o sacrifício que as mulheres fizeram nos últimos 50-70 anos, sob o pretexto da “mulher selvagem” que não se deixa dominar. Entramos nos extremos. Se outrora as mulheres se manifestavam para poder votar, entrar numa universidade ou ter o mesmo salário que os homens, hoje em dia estas “mulheres selvagens” não se manifestam, não votam, não querem estudar e não querem trabalhar em grandes empresas.

 

Workshops para bolsas abastadas

 

Em 2017 estive quase, quase, para me inscrever num workshop sobre o sagrado feminino e como orientar círculos de mulheres. Eu queria e sentia que devia, de facto, tomar contacto com esse lado que eu achava perdido. Mas para voltar a sentir-me mulher,  a ideia que me era transmitida – ou como eu a recebi – era que deveria deixar crescer o cabelo, passar a usar produtos de beleza naturais, comer vegan, usar saias, deixar de tomar a pílula, viver no meio da natureza (pés descalços na terra e cabeça no colo de outra mulher) e deixar o meu emprego estável e bem remunerado para ser terapeuta holística de qualquer coisa ou guardiã de círculos femininos.

 

Não fiz, felizmente, esse workshop porque era caro para a minha bolsa – tal como tantas experiências “espirituais” e de desenvolvimento pessoal que andam por aí, que só servem para quem tem arcabouço financeiro.

Um ano depois fiz a Benção do Útero em Lisboa, numa cerimónia bem simples mas muitíssimo intensa, com mais uma dezena de pessoas (e muuuuuuuuuuuuito mais acessível financeiramente) que mudou a minha visão de mim mesma enquanto mulher e do feminino – obrigada Helena Pereira.

 

Hoje em dia, depois de algumas leituras, experiências pessoais e trocas de ideias, estou em paz com a mulher que sou, longe de estereótipos, quer sociais quer do mundo espiritual new age.

Mas continuo indignada porque ainda vejo muita mulher que advoga direito a ser selvagem, que participa em workshops de empoderamento e que fala acerca da força do feminino (a maioria das vezes em círculos restritos e bem pagos) que na prática não serve a comunidade nem serve quem realmente precisa de ser empoderado.

 

 

 

O verdadeiro trabalho de empoderamento

 

Enquanto há pessoal a reunir no mato pra entoar mantras,  há associações de bairro e juntas de freguesia a trabalhar, alguns em regime voluntário, a receber mulheres agredidas pelos maridos, que vivem em casas minúsculas com a família toda e onde não existe privacidade, mulheres cujos filhos são abusados sexual e psicologicamente por quem os devia amar.

Há pessoas a ensinar mulheres a escrever, a fazer contas, a abrir uma conta no banco ou o básico de contabilidade para organizarem os seus negócios próprios.

 

Eu fui voluntária num Centro de Acolhimento Temporário da Santa Casa da Misericórdia durante alguns anos e vi muita criança com espinhos de morte, a suportar situações que ninguém devia sequer imaginar nem nos seus piores pesadelos.

Eu não fui só ensinar inglês e ajudar a fazer TPC’s, eu fui ajudar meninos e meninas sozinhos e vulneráveis a perceber que nem todas as pessoas são más e os abandonam, que precisam estudar para arranjarem bons trabalho e serem independentes e a dar aquele boost de autoestima que a família não pode ou sabe dar.

 

Tenho a certeza que estes miúdos e os profissionais que trabalham com eles todos os dias agradeceriam atenção e apoio com tanto compromisso quanto aquele que é aplicado em eventos quântico-estelares da 89º dimensão do curto circuito da tríade pleidiana da nova era (o termos são inventados e não se destinam a criticar crenças ou ideologias pessoais).

 

Sou a favor de uma prática espiritual e/ou religiosa em que as pessoas prestam cuidados a quem as rodeia, no mundo real. Há muita gente sofrida por aí a precisar do nosso empenho e amor. Não os vamos negligenciar favorecendo antes uma espiritualidade elitista, aluada, consumista, tipo clube e que serve apenas a alguns.

 

 

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4 Comentários
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Joana Silva
23 Junho, 2021 18:22

Gosto tanto da forma como descreves aquilo que vai também dentro de mim, e que por vezes eu não me sinto inspirada para escrever com a mesma assertividade. Juro que fico mesmo muito agradecida à vida, ao Universo, ao que quer que seja, pelos nossos caminhos se terem cruzado e eu poder falar contigo sobre estes e outros assuntos de forma tão espontânea e aberta.

Gisela
Gisela
23 Junho, 2021 06:01

Maravilhosa reflexão!

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Adorava saber o que pensas sobre este assunto ;)x
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