O outro como espelho da tua sombra
Esperar estar totalmente bem para entrar numa nova relação não é algo que eu aconselhe.
É preciso um encontro com o outro para que percebas que ele pode ser um espelho da tua sombra e que a fricção que essa relação traz é essencial para o teu crescimento pessoal, que consequentemente impacta as tuas relações interpessoais.
Claro que há momentos em que a vida nos pede solidão. E mesmo dentro de uma relação, o espaço individual, onde nos regulamos fora do olhar, da validação e do conforto do outro, é fundamental. Não só para o nosso bem estar, mas também para a saúde da relação.
Mas esta ideia de “primeiro tenho de me conhecer”, “primeiro preciso de estar bem” ou “só entro quando estiver pronta” é, muitas vezes, racionalização, defesa, medo e fuga.

A fantasia de: “tudo alinhado” como sinal da relação perfeita
Há também a fantasia Disney de que, se for a pessoa certa, não haverá dúvidas, tudo fluirá sem fricção e tudo estará alinhado.
Mas hey!! É para isso que aqui estou! Para contrariar as historinhas românticas bonitinhas e dar-te uma sacudidela à boa maneira de shadow worker!
Pois, mas… Não é assim que a vida relacional funciona.
Sim, há os mínimos que são essenciais: respeito, reciprocidade, consistência, responsabilidade afectiva. Isso não está em causa. Mas o que acontece com frequência é outra coisa. Ao evitarmos o mal estar que o confronto com o outro desperta em nós, acabamos por evitar esse mesmo encontro.
Quando evitamos a fricção relacional, estamos muitas vezes a evitar partes nossas que só aparecem precisamente nesse reconhecimento perante uma outra pessoa. E isso pode doer.
É por isso que fugimos. Não somos tolos… queremos evitar a dor a todo o custo. Só que, ao fazê-lo, estamos também a amputar o nosso próprio crescimento pessoal.
O outro como espelho da tua sombra
E aqui entra o shadow work relacional: o outro não nos mostra apenas amor, interesse ou desinteresse. O outro activa zonas inconscientes, toca feridas, acorda defesas, expõe carências, desmonta fantasias e ilumina partes de nós que, sozinhos, talvez continuassem escondidas.
Por isso, o confronto nem sempre é destruição. Muitas vezes é revelação.
E o que dói nem sempre é o outro em si ou a própria relação. Muitas vezes é aquilo que ele fez emergir em nós e para o qual ainda não temos linguagem, estrutura ou consciência suficiente para sustentar.
Quando uma conversa, um silêncio ou um gesto disparam os famosos “gatilhos”, o susto é imediato. Mas o gatilho não é, por si só, prova de que o outro está errado ou de que a relação é errada. Muitas vezes é apenas sinal de activação de que algo em nós foi tocado.
O problema é que, nesses momentos, queremos resolver tudo depressa, dentro de nós, no outro e na relação. E essa urgência pode gerar desencontro, ansiedade e interpretações que confirmam exactamente os medos que já levávamos connosco.
Então, antes de fazeres novelas turcas na tua cabeça, pára um pouquinho.
Fica contigo um momento. Observa o que foi activado.
Pergunta-te:
- O que é que isto tocou em mim?
- Que parte minha entrou em cena?
- O que é que eu estou a sentir agora para lá da história que estou a contar?
Nem tudo pede solução imediata ou corte ou conversa urgente.
Às vezes, o que foi activado pede apenas presença. Pede que te sentes com o desconforto tempo suficiente para que ele deixe de ser só reacção e comece a transformar-se em consciência.
Porque nem sempre crescemos longe da relação.
Muitas vezes, crescemos precisamente no lugar onde o outro nos devolve aquilo que, sozinhos, ainda não conseguíamos ver.
Boas reflexões!

Vivo para escrever. Adoro puzzles e mistérios. Não passo sem um cafézinho, música e uma boa dose de ironia. Silêncios são necessários e prazerosos, assim como os livros. * Sou Mestre em Psicologia Clínica e trabalho como Terapeuta de Shadow Work e Desenvolvimento Pessoal. * As minhas áreas de interesse preferidas são Psicologia Analítica, Mitologia, Filosofia, Psicologia da Religião e Parapsicologia.