A vida não tem de estar toda resolvida
Há uma pressão enorme, que já não é nada de novo, mas que continua muito alimentada pelas redes sociais e por certos discursos de desenvolvimento pessoal, de que a vida tem de estar toda alinhada, limpa, coerente, transparente e resolvida.
Como se uma pessoa, para estar bem, tivesse de olhar para a própria vida e dizer:
“Sim, isto é exactamente o que quero e está tudo organizado.”
Mas a verdade da vida humana raramente é assim.
Muitas vezes sentimo-nos uma fraude, angustiados ou frustrados, porque em vez de termos finalmente alcançado estabilidade, continuamos a sentir que o mundo ainda não está seguro debaixo dos nossos pés. Aquilo que tanto desejamos, e pelo qual tanto lutámos, ainda não se concretizou.
A realidade é que a vida pode ser ambígua, imperfeita e vivida em camadas
Há amor e desejo em lugares diferentes.
Há escolhas que não são totalmente livres, porque existem histórias, vínculos, responsabilidades e tempos de vida distintos.
Há objectivos que pareciam certos há dois meses e que agora parecem desalinhados connosco.
Há caminhos que faziam todo o sentido na semana passada e que hoje já não trazem assim tanta certeza.
A vida não tem de estar toda resolvida
A vida não tem de estar toda alinhada ou resolvida.
E isso não significa que estamos a falhar.
Significa apenas que estamos num momento de transição, onde coexistem partes diferentes de nós.
O trabalho interior nem sempre é arrumar tudo de imediato. Às vezes é aprender a habitar esse espaço intermédio com consciência.
E sim, isso pode causar angústia.
Pode trazer aquela sensação de ficar sem chão. Pode fazer-nos acreditar que já devíamos estar noutro patamar, sobretudo quando já fizemos terapia, já atravessámos processos difíceis e levamos às costas muitos anos de trabalho interior.
Mas há processos que não se apressam só porque nós achamos que já devíamos estar “mais evoluídos”.

A tensão entre opostos no processo de individuação
Jung falava muito da importância de suportar a tensão entre opostos no processo de individuação.
Amor e desejo.
Segurança e liberdade.
Compromisso e descoberta.
Vontade de ficar e impulso de partir.
Necessidade de estrutura e fome de vida.
Nem tudo se resolve imediatamente. Por vezes é preciso viver durante algum tempo dentro dessa tensão para que algo novo possa surgir. Não uma solução rápida. Não uma resposta pronta. Mas uma nova forma de estar perante a situação que nos aflige.
Jung chamava a isso função transcendente: a possibilidade de a psique criar uma terceira via, algo que transcende o conflito inicial.
Mas para isso é preciso aguentar o desconforto sem fugir dele, sem o negar, e sem tentar resolvê-lo à pressa só para deixar de doer.
Precisamos aprender, ainda que custe, e se custa, a sustentar esse espaço de transição onde não há solução à vista, onde não há mapas nem trilhos abertos no chão.
É por isso que eu digo tantas vezes que este desconforto não é para passar por cima, nem para defumar com pau-santo e três Avé-Marias. É para ser atravessado, com paciência, consciência e com muito amor por nós próprios.

Vivo para escrever. Adoro puzzles e mistérios. Não passo sem um cafézinho, música e uma boa dose de ironia. Silêncios são necessários e prazerosos, assim como os livros. * Sou Mestre em Psicologia Clínica e trabalho como Terapeuta de Shadow Work e Desenvolvimento Pessoal. * As minhas áreas de interesse preferidas são Psicologia Analítica, Mitologia, Filosofia, Psicologia da Religião e Parapsicologia.