Nem Sempre Zen®

Shadow Work | Desenvolvimento Pessoal | Espiritualidade

Como é o trabalho com a sombra?

 

Velas pretas, enigmas, caveiras e cenas dark – será isso o trabalho com a sombra?

 

Por muito que eu, Patrícia, tenha uma tendência para tudo o que é misterioso e macabro, seja admiradora da subcultura gótica e goste de estudar o dark side do ser humano, asseguro-te: isso não é trabalhar a sombra (aka shadow work).

Compreendo que muitas pessoas sejam atraídas para este tema da sombra por causa de uma certa aura sedutora de mistério e misticismo.

E sem dúvida que é uma associação super interessante, pelo menos para mim! Mas velas pretas, enigmas, caveiras e cenas dark, apesar de extremamente simbólicos, são apenas uma questão de identificação pessoal e estética.

 

 

Como abordar o trabalho com a sombra?

 

A forma mais segura e realista de abordar o trabalho de integração da sombra pouco ou nada tem a ver com cenas mágicas e místicas, uma vez que este é um processo que requer consciência e muito trabalho prático de observação e auto análise.

 

A sombra é uma parte integrante da nossa psique, segundo a teoria junguiana, e deverá ser trabalhada no sentido de a conhecer e aceitar. Essa sombra é composta por qualidades e atributos que reprimimos e está no nosso inconsciente, sendo, portanto, inacessível.

 

A sombra torna-se acessível através de, por exemplo:

 

Sonhos, que podem ser analisados com a ajuda de um terapeuta – não com dicionários de sonhos, ok?

Ou

Atos falhados, no linguajar freudiano, que é quando a gente diz algo em substituição do que queremos realmente dizer, sem nos apercebermos.

 

Temos aqui, portanto, vários processos em que é necessário que estejamos capazes de fazer auto crítica, dai ser importante deixar de lado o “pensamento mágico”.

 

 

O que é o pensamento mágico?

 

Thomas H. Ogden, num artigo para a Revista Brasileira de Psicanálise (2012), definiu o pensamento mágico como sendo o acto de:

 

evadir-se do enfrentamento da verdade da própria experiência interna e externa. O método empregado para alcançar esse objetivo é o da criação de um estado mental no qual o indivíduo acredita criar a realidade na qual ele e os outros vivem.

 

 

Ou seja, quando trabalhamos a sombra somos “chamados à terra”. Porquê?

 

Porque a realidade magoa e quando sofremos, na maioria das vezes, não estamos psicologicamente aptos a suportar o embate de uma traição, de uma morte ou qualquer outro evento que seja perturbador para nós.

Assim, a nossa tendência de auto protecção é olhar de forma romântica e mística para aquilo que nos faz sofrer, pois dessa forma escondemo-nos atrás de um significado misterioso e/ou sobrenatural que vai amortecer o impacto do choque.

 

“Na medida em que a realidade psíquica oculta a realidade externa, a capacidade do indivíduo de distinguir sonho e percepção, símbolo e simbolizado vai se degradando progressivamente. Disso resulta que a própria consciência (consciência de si) é comprometida ou perdida, o que, no enquadre analítico, leva a uma situação em que o paciente trata os seus pensamentos e sentimentos não como experiências subjetivas, mas como fatos.”

Thomas H. Ogden

 

Ora, quando fazemos shadow work precisamos estar vulneráveis para abrir o coração e a mente à experiência de confrontar a sombra.

É, por isso, essencial manter o pé no chão, uma vez que vamos descascar as camadas protectoras.

Aquelas mesmas que nos defendem de enfrentar a crueza da realidade do mundo, e o desvelar do nosso interior pode abanar a nossa estrutura interna, como a conhecemos.

O que se pretende é que sejamos aptos a olhar esse novo estado, outrora oculto, com um espírito critico e analítico.

 

 

 

 

Velas pretas, enigmas, caveiras e cenas dark não é shadow work

 

A individuação — o processo de uma pessoa tomar-se toda e única — tem como objectivo abraçar simultaneamente a luz e as trevas para criar um relacionamento construtivo entre o ego e o self (nosso símbolo pessoal da totalidade individual). No encontro terapêutico, através de um diálogo honesto e interpretação de sonhos, temos o meio para enfrentar nossa elaborada charada de aparências e aceitar quem realmente somos.

Connie Zweig

 

Trabalhar a sombra é difícil, porque somos “obrigados” a olhar a nossa vulnerabilidade, a enfrentar a nossa elaborada charada de aparências e a por uma série de crenças em causa (não necessariamente de as abandonar mas sim de as olhar com espírito critico).

Além disso, somos levados a admitir que não passamos de “apenas humanos”, sem quaisquer propriedades mágicas de omnipotência e sapiência.

 

Mas como sempre digo, é nessa vulnerabilidade que reside a nossa maior força. Dessa forma estaremos preparados para fazer as pazes com a nossa sombra.

 

 

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[…] tenho escrito vários artigos sobre este processo, como este, mas hoje gostava de lançar outra […]

Joana
30 Julho, 2021 10:16

Existem muitas ideias erradas do que é o Shadow Work. Achei muito interessante referires a questão da estética porque por vezes o Shadow Work é associado apenas a isso, temos uns objectos mais dark, uma música mais pesada, e já acham que é trabalho com a sombra. Gostei muito da forma esclarecedora como expuseste o assunto. Um beijinho

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