Como pode o amor não ser suficiente para se ser escolhido?
Quantas vezes não ouço pessoas atormentadas por esta dúvida cravada no peito: Como pode o amor não ser suficiente para se ser escolhido? Se eu sou a pessoa da vida dele/dela porque razão ele/ela casou com outra/o?

“Vc acha possível alguém falar que te ama e ainda assim não ficar com você?”
A resposta da Ana Suy não podia ser mais certeira:
Claro. Inclusive penso que tem quem só suporte ficar com quem não ama.
A equação do amor (versão lentes cor de rosa)
No imaginário romântico que nos venderam desde sempre a equação do amor é:
amor = compromisso = escolha = projecto de vida
Mas na vida real, onde as relações são organismos vivos, cheios de contradições e zonas cinzentas, amar não é, nem de perto nem de longe, o mesmo que escolher ficar.
- Há quem ame profundamente e, mesmo assim, não consiga romper amarras antigas.
- Quem ame e não consiga enfrentar o medo da mudança, do escândalo, do julgamento alheio ou da solidão.
- Ou que não suporte a possibilidade de magoar terceiros, filhos, famílias, ou simplesmente de se despir da velha pele de “boa pessoa”.
- Ainda há quem só suporte viver com quem não ama porque aí não há risco de se perder, de se dissolver, de se desiludir outra vez.
- E quem veja no outro a sua própria sombra e isso pode ser insuportável.
Vamos tirar as lentes cor de rosa e ver a vida com um bocadinho de pragmatismo:
O amor não é contrato. Não é garantia. Não é promessa.
Enquanto terapeuta (e ser humano), vejo isto acontecer vezes sem conta:
– pessoas que se amam mas não ficam,
– pessoas que ficam, mas não se amam,
– pessoas que não sabem, afinal, o que querem… mas sentem, vibram, procuram e sofrem. Umas desistem, outras persistem.
De tudo isto, o que é que sobra?
Sobra a coragem de reconhecer que o amor é plural, escorregadio e raras vezes encaixa no modelo da “escolha única e absoluta”.
O trabalho de aprender a amar com maturidade, com liberdade e sem amarras.
O desafio de viver (e aceitar) que podemos amar várias pessoas, de maneiras diferentes, em momentos diferentes.
E, sobretudo, sobra o desafio de nos escolhermos a nós, não como egoísmo, mas como integridade. Porque às vezes, ficar consigo próprio é a única escolha possível.
PS: Nem de propósito, enquanto escrevo este texto, apanhei esta música na playlist:
https://open.spotify.com/intl-pt/track/75SqjGbzUnlQzytV5UzKER?si=16332d27091248e1
… inspirada na ópera Madama Butterfly. E aí está um belo exemplo de como as escolhas do coração nem sempre superam as escolhas do quotidiano, da “vida real”. Não porque não há amor mas porque as convenções, pressões sociais ou a própria imagem pessoal que se pretende manter, não sustenta outra relação que não uma aparentemente bonitinha e socialmente aceitável, ainda que completamente desprovida de eros, de aventura, de vida.

Vivo para escrever. Adoro puzzles e mistérios. Não passo sem um cafézinho, música e uma boa dose de ironia. Silêncios são necessários e prazerosos, assim como os livros. * Sou Mestre em Psicologia Clínica e trabalho como Terapeuta de Shadow Work e Desenvolvimento Pessoal. * As minhas áreas de interesse preferidas são Psicologia Analítica, Mitologia, Filosofia, Psicologia da Religião e Parapsicologia.