Nem Sempre Zen®

Shadow Work | Psicologia & Bem Estar

O culto do Eu

 

Como me enganei acerca dos trabalhadores da luz dos tempos modernos

 

Quando recomecei a explorar a minha espiritualidade, já à beira dos 40 anos mas ainda com uma grande dose de ingenuidade, pensava que os denominados “trabalhadores da luz” dos tempos modernos vinham trazer ideias renovadas, diferentes formas de viver, mais adaptadas à nossa realidade actual com uma maior consciência social e empatia.

 

Mas cedo percebi que estava redondamente enganada.

 

A pandemia de Covid-19, bem como algumas tragédias mundiais recentes, trouxeram à tona o que, para mim, é o pior do mundo desta espiritualidade moderna, que prega uma Nova Era.

 

 

O culto do EU

 

Esta Nova Era, de novo não tem nada.

 

As ideias propagadas hoje em dia, sobretudo nas redes sociais, desde o Tik Tok ao Instagram, remetem aos anos 60/70. Nesta altura, o flower power, apesar de muito regado a LSD, é certo, caracterizava-se também por alguma consciência social e almejava por mudanças com uma componente muito prática.

Veja-se nos Estados Unidos, as pessoas saiam à rua a falar de amor mas também proferiam apaixonados discursos anti corrupção, exigiam o fim da guerra [no Vietname], a aceitação das minorias e o fim do preconceito e melhores condições sociais.

 

Parece-me que a espiritualidade de hoje, porém, está mais empenhada no culto do “EU” e pouco ou nada é feito em prol da sociedade e do “outro”.

 

As palestras “espirituais” da nova era estão carregadas de expressões como:

A minha verdade, a minha essência, o meu propósito, a minha cura, o meu caminho ou a minha voz.

 

E, segundo eles, tudo no mundo serve o meu “EU”:

 

Os eclipses servem para abrir portais para EU me desenvolver espiritualmente; os astros servem para EU receber mensagens sobre o curso da minha vida; as estrelas existem para EU ter um guia no caminho da iluminação e os elementos estão aqui para que EU os possa manipular e criar a MINHA realidade.

 

Curiosamente, ao mesmo tempo, os “new agers” pregam a necessidade de transcender o ego, deixar o ego ir, enfim…. Paradoxos tridimensionais, não é verdade? :p

 

 

 

 Socorro! O meu feed de Instagram está cheio de pessoinhas iluminadas!

 

Durante os últimos meses, ao observar o meu feed de Instagram, percebi que já não me identifico com grande parte das pessoas que seguia atentamente, há cerca de 4/5 anos, em busca de inspiração.

 

É que mesmo maltinha fixe que antes partilhava pensamentos e fotografias interessantes, agora deu em “pessoinha iluminada” e especialista em ciências ocultas.

 

Como não tenho interesse absolutamente nenhum em “medir pilinhas” neste assunto, optei por me resguardar e manter grande parte das minhas crenças e práticas espirituais privadas.

 

Por um lado, porque a fé que professo é feita de pedaços da minha experiência de vida, assim como os significados que eu atribuo às coisas são muito pessoais, logo ninguém vai entender, e, para dizer a verdade, também não me interessa que entendam.

 

Por outro lado, percebo que as pessoas não têm verdadeiro interesse em conhecer e/ou compreender a mensagem que queremos passar ou o propósito do que estamos a fazer. O seu único objectivo, parece-me, é somente coscuvilhar para saber onde e como pode fazer igual.

 

 

A apropriação cultural e as pseudociências

 

Sinto que falta profundidade e interesse genuíno em aprender a origem e as razões que estão por trás de algumas crenças e práticas, especialmente se pertencerem a culturas que não são a nossa cultura – isso evitaria a apropriação cultural a que assistimos impávidos e serenos.

 

Falta capacidade de analisar os temas sob uma lupa simbólica, falta espírito analítico para filtrar as informações que nos chegam, falta a curiosidade para pesquisar as fontes. Veja-se a prepotente utilização de termos da Física Quântica, com o objectivo de dar credibilidade às terapias ou de tentar desmistificar cientificamente a fé e a espiritualidade.

 

Para quê? Pergunto-me. Afinal, o que é a fé se não a esperança em algo que não se vê e não se explica?

 

 

Mantém a mente aberta e o espírito crítico

 

Muitas pessoas continuam a seguir o trilho dos outros, sem se atrever a criar o seu próprio caminho.

Não entendem que o que serve a um pode não servir ao outro e pensam que basta fazer uma iniciação espiritual numa coisa qualquer para lhes garantir algum tipo de acesso VIP à galeria dos bacanos iluminados.

 

E assim, continuamos com o culto do “EU”: ir à caça de uma filosofia que não interessa de quem veio nem de onde surgiu com o único intuito de ganhar dinheiro, ter o ego massajado com elogios, obter diplomas para exercer uma terapia qualquer ou simplesmente ser conhecido no meio “espiritual”.

Acredito que o nosso dever é manter a mente aberta a todas as hipóteses e ter um espírito crítico para validar as teorias que são difundidas por aí.

É importante procurar sempre aquilo que ressoa com quem tu és, mesmo que o teu caminho seja feio, sujo, escuro ou barulhento, de acordo com os parâmetros e as modas dos “trabalhadores da luz” das redes sociais.

 

 

Certifique-se de encontrar sua própria auto validação – explore ideias livremente e confie na sua própria experiência. Não se deixe enganar por dogmas, conceitos e palavras de pessoas cujas posições equivalem a alguma autoridade – de sacerdotes, monges, gurus ou trabalhadores da luz.

 

Mitch Horowitz

 

nota pessoal

 

Esta é só a minha opinião, não é, obviamente, a lei nem será a opinião de muitas pessoas, e se é este o teu caso, agradeço desde já por me leres. Qualquer questão será sempre bem vinda.

Considero o Tik Tok super divertido e o Instagram um veículo fantástico para comunicar, vender, aprender, ensinar e partilhar mas, muitas vezes, nem sempre as pessoas com mais seguidores nestas plataformas ou com mais KM de viagens a “lugares santos” são as mais idóneas.

Mas claro que, como em tudo na vida, nem todos os terapeutas são charlatães e há efectivamente trabalhos bonitos e honestos a serem feitos.

Quando critico, critico a irracionalidade, a fantasia ilusória, as pseudociências manipuladas por pregadores de meia tigela que abusam da vulnerabilidade dos outros para ganhos pessoais, sejam eles monetários ou narcisismo puro.

É tudo, e sempre, uma questão de olhar analítico, crítico e atento.

 

 

Sugestões de leitura:

 

The Culture Behind New Age Spirituality – Legacy Press (kclegacypress.com)

 

New Age Spirituality: A Breeding Ground For Toxic Positivity – Manipal The Talk Network

 

 

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