Nem Sempre Zen®

Shadow Work | Psicologia & Bem Estar

Culpabilização nos movimentos religiosos e terapêuticos

 

 

 

O problema da culpabilização nos movimentos religiosos e terapêuticos alternativos – Parte 1/3

 

 

Para falar do tema da culpabilização presente em alguns movimentos religiosos e terapêuticos alternativos, partimos da premissa que

 

“No coração de todas as grandes tradições espirituais está o humilde reconhecimento de que existem forças no universo que são mais poderosas do que nós”.

 

A citação é do autor John Amodeo, num artigo para a Psychology Today, no qual ele diz também:

 

Um ponto de vista popular em algumas comunidades espirituais e da Nova Era é que somos responsáveis ​​por tudo o que nos acontece. Quando algo dá errado, somos instruídos a nos perguntar: “Como eu criei isso?

 

Um dos membro da comunidade, Betrayal Trauma Recovery, fundada por Anne Blythe para apoiar mulheres vitimas de abuso e trauma, refere que a expressão:

“nós criamos nossa própria realidade”, é uma forma de culpar a vítima. Existe o ensinamento de que tudo o que sentimos e experienciamos tem origem nos nossos próprios pensamentos (…) e que nada acontece connosco do lado de fora. Isso pode ser muito culpabilizador para uma vítima [de abuso].

 

Este discurso pode ser verdadeiramente desestabilizador para alguém que esteja a passar por um problema, qualquer que seja a sua natureza, pois há situações que estão muito além daquilo que nós, individualmente, conseguimos fazer.

 

Ultrapassar a dor, o trauma, a perda ou reconhecer um comportamento ou hábito nocivo pode levar anos, dependendo muito das condições pessoais, financeiras, familiares e sociais que temos. 

Ao invés de apontar dedos, deveremos ser mais compassivos e activos, pois este é um problema que nos toca a todos.

 

 

Amor próprio e auto cuidado

 

Actualmente damos muito valor à questão do amor próprio e do auto cuidado, uma tendência que veio para nos libertar de vários tipos de opressão a que – principalmente as mulheres, mas não só – temos sido submetidas.

Mas a quase obrigatoriedade de manter hábitos saudáveis pode trazer-nos alguns dissabores, nomeadamente: foco excessivo em coisas que não podemos controlar, frustração e culpabilização.

 

Alienação da realidade no meio espiritual

 

Já para não falar da alienação da realidade na qual alguns conselhos terapêuticos de bem-estar espiritual estão mergulhados, como se todas as pessoas vivessem o mesmo estilo de vida, com as mesmas condições sociais e financeiras.

Ao ouvir falar alguns influencers e gurus do bem estar relativamente a determinados aspectos do autocuidado, parece que se esquecem que algumas pessoas não têm outra opção senão ter o seu dia preenchido com o trabalho e os afazeres domésticos. 

Exemplos bem próximos de nós: O que dizer da mulher, mãe solteira, que tem dois empregos para poder sustentar os filhos, chega a casa e tem as tarefas diárias para cumprir, e quando termina só quer fechar os olhos e descansar?

O maior autocuidado para esta mãe será ver os seus filhos a dormir, saudáveis, depois de um bom jantar, e poder ela também deitar-se a recuperar energia.

 

Responsabilização é diferente de Responsabilidade

 

No primeiro temos o conceito que “eu sou responsável por algo acontecer”. No segundo, “eu responsabilizo-me pelo que sei o que tenho de fazer, e faço-o”. 

Certos movimentos new age, especialmente os que se dirigem às mulheres, fomentam igualmente a ideia de “feminino ferido”, “útero doente” ou conceitos semelhantes – como se elas fossem responsáveis pela criação e manutenção do problema.

 

Isto dá-se, nomeadamente, quando referem que problemas do sistema reprodutor ocorrem porque a mulher não aceita a sua feminilidade, carrega traumas do passado ou tem uma má relação com o pai, entre outros.

 

Aquilo que muitas vezes acontece é que os terapeutas holísticos, sem formação em saúde, psicologia ou apoio social e comunitário, disparam sobre as pessoas que os procuram, baseando-se em diversas teorias religiosas, filosóficas e até (pseudo) cientificas, como se fossem verdades absolutas (e não um sistema crenças) e instruem-nas na ideia de que elas estão “feridas, traumatizadas e quebradas”. 

 

“Você não vê terapeutas falando sobre energia peniana para os homens, mas estamos sempre encontrando terapeutas alternativos dizendo que a mulher precisa limpar o corpo por causa de relacionamentos passados”

Bruno Farias, psicólogo

 

A solução oferecida passa muitas vezes por fazer determinado ritual mágico, curso espiritual de vários meses ou retiro detox – muitos deles caríssimos e sem qualquer efeito terapêutico ou apoio psicológico auxiliar.

 

 

 

 

Culpabilização das mulheres

 

Além da apropriação cultural de rituais que estão fora do nosso contexto, existe também a ideia de que um círculo feminino de apoio pode curar problemas ginecológicos ou traumas familiares ancestrais.

Em consequência destas ideias, as mulheres têm tendência a sentir-se responsáveis pelos seus problemas – mesmo quando não têm controlo sobre eles, especialmente nas questões de saúde. É como se estivéssemos a culpar a pessoa por aquilo que acontece, em vez de apresentarmos real ajuda.

 

O mesmo acontece com os meios religiosos, nos quais é difícil para as mulheres, em casos de violência doméstica, por exemplo, ter o apoio necessário para resolver o problema.

Muitas vezes elas são responsabilizadas pelos líderes das igrejas, como se a felicidade e estabilidade do lar dependesse unicamente delas e assim retirando ao cônjuge qualquer responsabilidade na relação, a não ser providenciar o sustento financeiro.

 

A religião ajuda na manutenção do patriarcado também porque é nela que vamos buscar respostas para as injustiças sociais (…) as religiões em geral sacralizam a família e a autoridade do marido (…) a família é sempre uma coisa a ser salva impossibilitando o afastamento de vítimas dos seus agressores.

 

(Continua….)

 

Autoria, pesquisa e redacção:

Joana Silva. terapeuta e autora do site www.terapiasdalma.com e Patrícia Gomes, terapeuta e autora do site www.nemsemprezen.pt

(dezembro 2021 – março 2022)

 

Bibliografia:

Ávila, A. Aragão. (2019). “Armadilhas da culpabilização materna”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 28, n. 2, e65236.

New Age Bypass Is Victim-Blaming | Betrayal Trauma Recovery – consultado em 31/01/2022

No, We Don’t Create Our Own Reality | Psychology Today – consultado em 12/12/2021

Ex no útero? O que é a reconsagração do ventre – consultado em 01/02/2022

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2 Comentários
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Jo
Jo
4 Abril, 2022 21:22

gostei imenso da exposição.
algo em que acredito.
por trabalhar na área social, reconheço que desta ideia de sermos responsáveis por tudo o que nos acontece é demasiado redutora.
acredito que sim, somos responsáveis pelo que fazemos com aquilo que nos acontece, mas mesmo neste caso nem todos temos os recursos (sejam eles mentais, materiais, sociais, espirituais, etc etc) para tirar aprendizagens e fazermos transformações.
Daí a importância da multidisciplinaridade.

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