Nem Sempre Zen®

Shadow Work | Psicologia & Bem Estar

Culpabilização e como ajudar a empoderar

 

 

 

O problema da culpabilização nos movimentos religiosos e terapêuticos alternativos – Parte 2/3

 

 

O que é empoderar e como podemos efectivamente ajudar?

 

Seja sob a forma de apoio emocional, seja através de estratégias práticas concretas, empoderar alguém significa ajudar a pessoa a aceitar a ideia de que determinado problema existe sim, mas que isso não significa ter de carregar o seu peso sobre os ombros e, no seguimento disso, dar poder de decisão e autonomia.

 

Um dos problemas de algumas terapias new age é que as coisas acabam por ser uma pescadinha de rabo na boca.

Por exemplo: 

  • Ora tens problema X, porque não te aceitas enquanto mulher
  • Ora, como não te aceitas enquanto mulher, tens problema X.

 

O mesmo pode ser dito para ideia cocriação da realidade, dizendo à pessoa que ela não se sente merecedora e que é por isso que não tem a vida tal e qual deseja – isso não é empoderar. 

 

Hoje em dia há tanta obsessão com o assunto que se estivermos atentos acabamos por nos sentir culpados se não temos tempo de ir ao ginásio ou à aula de yoga, se o tempo para cozinhar é escasso e nem sempre conseguimos pensar em coisas mega saudáveis e acabamos por encomendar fast food!

 

Empoderar significa também que, ao invés de criticar e apontar o dedo, deveríamos oferecer ajuda através de atitudes, como por exemplo: cozinhar para ou cuidar dos filhos de uma amiga durante 1 hora para que ela possa ter tempo para si, seja para uma visita ao cabeleireiro, fazer uma massagem, compras, ir a aula de yoga ou simplesmente dar um passeio sozinha.

 

Um problema das mulheres, mas não só

 

Mulheres são alvos fáceis para falsas terapias e charlatanismo, até porque estão acostumadas a serem culpabilizadas pelos erros, coisa que o machismo já faz há muito tempo – Letícia Nascimento, ativista do Sagrado Feminino

 

A ideia das energias em desequilíbrio, principalmente nas terapias alternativas new age, pode estar a fomentar um retrocesso na posição das mulheres na sociedade.

Ao invés de criar condições para que se possam conciliar as vidas profissional e familiar, os gurus e terapeutas do feminino, perpetuando uma ideia difundida por algumas comunidades cristãs (mas não só), apontam para a manutenção da mulher num estatuto inferior, encostadas ao fogão e às principais tarefas parentais.

 

Ninguém tem de se sentir culpado porque escolhe a carreira em vez de construir família. Uma mulher não tem de se ver masculinizada para e porque consegue chegar longe no mundo empresarial. Tanto a energia do Feminino como a do Masculino existem em cada um de nós, e não é por um homem ser mais sensível ou por uma mulher ser mais batalhadora que essas energias estão em desequilíbrio.

 

A psicóloga e antropóloga Alana Ávila, numa revisão de literatura à obra de Lina Meruane, refere que a luta das antecessoras feministas pela independência feminina foi por água abaixo:

 

“As mulheres estão cada vez mais retornando às tarefas domésticas e a uma maternidade total. É através, principalmente, das figuras da “mãe-ecológica” e da “supermãe” que a autora tenta demonstrar como as crescentes recomendações para a maternidade tem ecos no confinamento da mulher ao lar, problematizando o papel da mulher em práticas relacionadas à maternidade, tais como a amamentação prolongada em livre demanda, a utilização de fraldas de pano, a preparação da alimentação dos filhos mais próxima ao natural, o parto sem analgesia ou intervenções médicas etc.,”

 

 

 

Como ajudar a reconhecer os sinais de alerta em situações de  culpabilização e como nos podemos proteger?

 

Este artigo pretende ser crítico sim, mas acreditamos que podemos continuar a usufruir de algumas terapias alternativas e práticas esotéricas e religiosas, para nosso desenvolvimento pessoal e espiritual, sem cair nas armadilhas da culpabilização e das ilusões de prosperidade e cocriação.

 

Obviamente que nem todos os terapeutas holísticos, padres, pastores ou mentores nos querem enganar e sabemos que há trabalhos muito bonitos e com sentido. O que precisamos todos é de espírito crítico. 

 

Se alguém nos faz deliberadamente sentir culpados pela situação em que estamos, estará realmente a olhar para nós sem julgamentos e com compreensão?

 

Há terapeutas (felizmente, do nosso conhecimento, não em Portugal) que simplesmente culpam a vítima por ter sido abusada, e que dizem que a cura para os seus problemas passa por perdoar o agressor – chegando ao ponto de colocar vítima e agressor na mesma sala para esse processo de perdão.

Essa é mais uma forma brutal de culpabilização.

 

(Continua….)

 

Autoria, pesquisa e redacção:

Joana Silva. terapeuta e autora do site www.terapiasdalma.com e Patrícia Gomes, terapeuta e autora do site www.nemsemprezen.pt

(dezembro 2021 – março 2022)

 

Bibliografia:

Ávila, A. Aragão. (2019). “Armadilhas da culpabilização materna”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 28, n. 2, e65236.

New Age Bypass Is Victim-Blaming | Betrayal Trauma Recovery – consultado em 31/01/2022

No, We Don’t Create Our Own Reality | Psychology Today – consultado em 12/12/2021

Ex no útero? O que é a reconsagração do ventre – consultado em 01/02/2022

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ju
ju
8 Abril, 2022 11:12

fantástico!
revejo-me tanto nesta perspetiva!

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Adorava saber o que pensas sobre este assunto ;)x
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