Nem Sempre Zen

Shadow Work * Aconselhamento e Psicoterapia

A espiritualidade não se vende

 

Depois de “a espiritualidade não se compra“, gostava de falar um pouco sobre “espiritualidade não se vende”.

 

Hesito de cada vez que escrevo sobre estes temas porque os que me são mais próximos advertem-me sempre para eu não me desviar do meu trabalho enquanto psicoterapeuta.

Mas, quando há assuntos que roçam o perigo para a saúde mental, acho que é meu dever ter uma atitude pedagógica.

 

Até porque muitas vezes, o resultado destas lavagens cerebrais aparece-me nas consultas: pessoas desapontadas, confusas, frustradas e a passar por crises de fé.

E era isso que eu gostava que as pessoas, sobretudo os potenciais clientes destes serviços e compradores destes cursos percebessem, que isto não tem a ver com acreditar em A ou B.

 

Tem a ver com a sensação de autoridade e exclusividade que passa para o público, de que determinada pessoa, como foi “baptizada com o Espírito Santo”, está, portanto, numa posição privilegiada para revelar como se alcançam, por exemplo, as bênçãos de um casamento perfeito.

 

Revelação essa que, claro, vai-te custar algumas centenas de euros.

Por isso, abre o olho!

 

Fotografia de Min An via @Pexels

 

 

 O mercantilismo da fé

 

Eu comecei a escrever este artigo inspirando-me num caso real de alguém que eu conheço, mas, na verdade, este artigo não é nem sobre esta pessoa, nem sobre outra qualquer. 

Este artigo é sobre o mercantilismo da fé.

 

Não quero apontar dedos ou julgar os meus “irmãos”, como já me acusaram de fazer. 

Acontece que estive demasiado tempo de boca fechada quando vi os meus “irmãos” serem abusados emocionalmente. numa igreja evangélica, há muitos anos atrás.

Talvez por isso hoje não me apetece ficar calada e fazer de conta que sou misericordiosa.

 

 

Há quem venda cursos para ensinar outros a chegar a Deus

 

Há quem venda workshops para revelar as verdades e os segredos que os próprios receberam em sonhos, por canalização divina. Disponíveis para o publico por um determinado preço, claro

Há quem venda espiritualidade como se fosse um comprimido, levando as pessoas a acreditar que uma aspirina pode curar um cancro ou que a força de vontade substitui a medicação psiquiátrica.

 

São estes que devem temer a justiça divina, o karma ou o que quer que seja.

Já eu, que até sou agnóstica, assumo a responsabilidade pelo digo e faço porque a única entidade a quem tenho de prestar contas é à minha consciência.

 

 

Mudar de crenças é normal

 

Mudar de crenças e alterar as perspectivas sobre a nossa existência enquanto seres humanos, são etapas pelas quais todos nós passamos de alguma maneira.

São processos naturais da nossa evolução.

 

Admiro as pessoas que não se detém num só padrão de pensamento ou forma de estar e viver; gosto de quem se questiona e ao seu lugar no mundo e daqueles que não tem medo de mudar.

E estou atenta a isso, sejam pessoas “famosas”, sejam pessoas do meu círculo pessoal. Acho que de certa forma são uma inspiração e por essa razão gosto de ouvir as suas histórias.

 

 

A conversão conveniente

 

Recentemente, apercebi-me que uma pessoa com quem em tempos privei, e que eu sabia estar a trabalhar como “terapeuta de energias tântrico-cósmicas” chamemos-lhe assim, converteu-se a Cristo.

E até aí tudo bem. Como disse, qualquer mudança é bem vinda e pode ser inspiradora.

E se nós vemos que a pessoa está feliz, melhor!

 

O que eu não pude deixar de reparar foi que num curtíssimo espaço de tempo, esta pessoa não só mudou a sua fé e perspectiva de vida pessoal e familiar, como simultaneamente mudou o shift do seu negócio de terapeuta, com o propósito de vender estas novas crenças.

 

 

As pessoas podem acreditar no que quiserem, não é da minha conta – e não é da conta de ninguém

 

O que eu não entendo é como é que alguém se converte e imediatamente começa a facturar em cima disso.

Não há espaço para a introspecção? Para a vivência da espiritualidade e para a integração dos novos valores, sobretudo com mudanças de vida tão abruptas?

Não posso e não vou obviamente afirmar que não houve realmente uma conversão.

 

No entanto, a ideia que transparece é a de uma conversão – convenientemente pública – para publicitar a ideia de mudança de vida e continuar a ter a mesma fonte de rendimento. Basicamente, apenas trocou a base teórica dos cursos.

 

Primeiro, explora-se a fé num contexto de espiritualidade new age e depois, num contexto de religião.

Isto tudo muito bem embrulhado num moralismo ideológico a fazer lembrar o Estado Novo: Deus, Pátria, Família.

… Com investimentos em criptomoeda à mistura.

 

~~

Isto em que eu acredito agora, e que mudou a minha vida, é que é o certo e fazendo assim como eu faço é que a tua vida se vai transformar. 
Queres saber como?
Vou ensinar-te tudo no meu curso!
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~~

 

A conversão de Saulo de Tarso

pela qual ele não pagou nada…

 

Há uma história na Bíblia muito marcante para qualquer pessoa que se converte à fé religiosa, ou um novo estilo de vida, seja baseado numa filosofia, espiritual ou não.

Essa história é a da conversão do Saulo, que se tornou depois o apóstolo Paulo.

 

 

Fariseu de nascimento e defensor da ortodoxia

 

Saulo era judeu, pertencente à seita dos fariseus, a mais rigorosa. Por isso, para ele, (…) era muito natural transformar a mais fiel observância da lei (…) na mais terrível perseguição dos primeiros cristãos.

 

Depois de expulsá-los de Jerusalém, decidiu expulsá-los até de Damasco, onde se haviam escondido.

O Senhor esperava-o ali.

 

(…) Saulo teve medo daquela força misteriosa e perguntou: “Quem és tu?”.

E ouviu: “Aquele Jesus que tu persegues”.

E perguntou ainda: “Senhor, o que queres que eu faça?”.

E lhe respondeu de novo: “Vai a Damasco e lá te mostrarei a minha vontade”.

 

Assim, cego e mudo, mas com espírito renovado, chegou a Damasco, onde ficou três dias em jejum e oração constante, até a chegada do sacerdote Ananias (…) que o batizou no amor de Cristo e lhe deu, novamente, não apenas a visão dos olhos, mas também a do coração.

 

 

A conversão de São Paulo, uma pintura de 1600 de Caravaggio.

 

 

Saulo não comprou o acesso a Deus.

Saulo viveu a experiência que lhe mudou o coração e a vida

 

Existem pessoas que precisam de ganhar a vida e encontram nestes meios religiosos e espirituais, que não têm regulamentação alguma, uma porta aberta para exibirem os seus delírios messiânicos.

Assim, cobram milhares de euros por:

Retiros espirituais, viagens a paraísos distantes para encontrares o teu propósito de vida ou cursos que te vão guiar até deus!

sem qualquer oposição.

 

É mais que certo que ter uma vivência espiritual tem um impacto positivo na nossa saúde física e mental.

Mas a espiritualidade não deve ser vista como algo que serve para “alcançarmos coisas” ou para resolver problemas.

Se não, vamos estar a desviar-nos do seu real propósito: encontrar um significado além do material.

 

É o que acontece com a conversão.

 

Uma conversão geralmente dá-se porque algo maior do que a nossa compreensão faz com que haja uma transformação radical.

Uma transformação da nossa voz, na nossa vontade, na nossa crença, na nossa forma de olhar o mundo e a nossa existência.

E esta nova visão está relacionada com valores espirituais e com aquilo que não vemos mas sentimos:

Um amor inexplicável, uma vontade de abraçar toda a gente que se atravessa no nosso caminho, um desejo de mudar o mundo e de partilhar o que recebemos.

 

Dito isto, e para encerrar, interpreta como quiseres 😉

 

Jesus entrou no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam, derrubou as mesas dos cambistas, e as cadeiras dos que vendiam as pombas; e disse-lhes:

 

Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores.

Mateus 21:12–13.

 

Jesus expulsando os vendilhões (antes de 1570). Por El Greco, atualmente na National Gallery of Art, em Washington D.C..

 

 

 

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