Nem Sempre Zen

Desenvolvimento Pessoal & Espiritualidade by Patrícia Zen

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Etiqueta: parentalidade

Cartas que nunca te escrevi

Eu gostava que esta carta por escrever fosse uma carta de amor…

… mas não é.

Não vou fazer aqui a descrição de uma qualquer novela mexicana mas para mim, pessoalmente é muito importante escrever sobre o meu pai e o perdão.

Nem Sempre Zen – Cartas que nunca te escrevi

Os meus pais divorciaram-se. A minha mãe ficou sozinha, desempregada, com uma filha adolescente para aturar. O pacote completo.

O meu pai simplesmente desapareceu da minha vida, sabe-se lá porquê e ao longo de mais de 20 anos nunca me tentou contactar.

Eu nem nunca fui “má” para ele que o possa ter ofendido. Nem tinha de ser, nem ele tinha de ficar ofendido, se tivesse sido esse o caso porque eu tinha 16 anos e o assunto [do fim do casamento deles] não era comigo, eu era “só” filha.

Não vou falar do quanto ele me prejudicou. Nem ele, se ainda for vivo, terá noção do estrago que fez na minha vida.

Mas vou falar daquilo que ele poderá ter perdido como pai.

  • Não viu a filha completar o ensino secundário sem nunca ter chumbado.
  • Não viu a filha tirar do seu tempo para ser voluntária e ajudar pessoas com necessidades.
  • Não a viu conseguir um emprego e mantê-lo, apesar das imensas dificuldades porque passou, por falta de experiência e orientação.
  • Não viu a filha fazer o exame teórico de condução sem falhar uma resposta e passar na condução logo à primeira.
  • Não a viu quando ela viajou para a Escócia e regressou cheia de fotografias e sonhos.
  • Não a viu, super feliz, na primeira fila do Rock in Rio em 2006.
  • Não a viu entrar para a universidade aos 28 anos, por mérito próprio.
  • Não a viu concluir o mestrado com uma dissertação classificada com 19 valores.
  • Não teve o prazer de beber uma cerveja com ela numa quente tarde de verão.
  • Não comemorou com ela os 20, os 30 e nem os 40 anos.
  • Não conheceu o seu grande amor, aquele homem que veio a mostrar-lhe o que é ser uma pessoa de carácter.
  • Não a viu tornar-se uma pessoa honesta, confiante, com sentido de humor, feliz e cheia de amor para dar.

Julgo que o meu pai não se lembrará de mim

… nem do rosto nem da pessoa que eu era. E mesmo que que se lembrasse, seria apenas uma recordação de alguém que já não sou porque eu mudei muito, em todos os sentidos.

De qualquer forma, é por isso que também não o procuro. Mais de 20 anos depois tenho a certeza de que ele, se tiver sido inteligente, também terá mudado e assim sendo, nem ele me conhece nem eu o conheço.

Durante muitos anos culpei o meu pai pela relação complicada que tinha com a minha mãe (que coitada, teve de aguentar o barco sozinha, totalmente desamparada), culpei-o por não conseguir olhar os homens com respeito, por ter perdido a qualidade de vida que tinha tido até então e por não ter podido ir para a universidade aos 17 anos quando todos os meus colegas foram.

Nem Sempre Zen – Afinal, apesar de tudo, eu dei a volta por cima

Perdão

Hoje em dia não guardo rancor e acabei por, de certa forma, o perdoar porque afinal de contas ele não era o culpado de nada.

Era eu, que pensava que não era capaz. As suas acções, no fim da história, não me limitaram.

Eu dei a volta por cima e consegui fazer tudo aquilo que a sua ausência inicialmente me negou.

Ele nunca vai saber como eu sou forte.

Mas eu sei.


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